Você compra um power bank de 10.000 mAh, o celular tem bateria de 5.000 mAh, e a conta parece fácil: duas cargas completas. Na prática, ele entrega bem menos que isso. Não é defeito nem propaganda enganosa (na maioria das vezes): é física. Neste guia eu explico por que o número da caixa não é o que chega no celular, quantos mAh fazem sentido para cada uso, o que muda com o carregamento rápido e o que a ANAC passou a exigir em 2026 para levar power bank no avião.
Resumo rápido
- O power bank entrega, em geral, de 60% a 70% do mAh da caixa em carga útil para o celular. Um de 10.000 mAh costuma render cerca de 1,2 a 1,4 carga de um celular com bateria de 5.000 mAh.
- Para o dia a dia, 10.000 mAh resolvem. Para viagem ou para dois aparelhos, 20.000 mAh. Notebook pede 20.000 mAh ou mais e saída USB-C de potência alta.
- Para carregamento rápido, o power bank e o cabo precisam falar o mesmo “idioma” do celular (USB Power Delivery na maioria dos aparelhos atuais).
- No avião (regra da ANAC desde abril de 2026): no máximo dois power banks por passageiro, só na bagagem de mão, até 100 Wh sem autorização, de 100 a 160 Wh com autorização da companhia e acima de 160 Wh proibido.
- Não dá para recarregar o power bank durante o voo, e LATAM e GOL também proíbem usar o power bank para carregar o celular a bordo.
Por que o power bank entrega menos que o mAh da caixa
O mAh (miliampere-hora) mede carga elétrica, mas só faz sentido junto com a tensão. As células de lítio do power bank trabalham com cerca de 3,6 V a 3,7 V. Já a saída USB entrega 5 V (ou mais, no carregamento rápido). Para subir de 3,7 V para 5 V, o circuito interno converte a energia, e toda conversão perde uma parte em calor. Depois, o próprio celular converte de novo para carregar a bateria dele, e perde mais um pouco.
Por isso a conta certa não é em mAh, e sim em energia, medida em watt-hora (Wh):
Wh = mAh × tensão (V) ÷ 1.000
Um exemplo com números redondos:
- Power bank de 10.000 mAh a 3,7 V = 37 Wh de energia guardada.
- Celular com bateria de 5.000 mAh a cerca de 3,85 V = mais ou menos 19 Wh.
- Somando as perdas na conversão e no carregamento, chega ao celular algo perto de 60% a 70% dos 37 Wh, ou seja, algo entre 22 e 26 Wh. Isso dá cerca de 1,2 a 1,4 carga completa, e não duas.
Os números exatos mudam conforme o modelo, a temperatura, o cabo e a potência usada. Carregar em potência alta costuma gerar mais calor e um pouco mais de perda.
Dica: procure a “capacidade nominal” na etiqueta
Muitos power banks trazem dois números na etiqueta de trás: a capacidade da célula (por exemplo, “10.000 mAh 3,7 V” ou “37 Wh”) e a capacidade nominal ou rated capacity, medida na saída de 5 V (por exemplo, “6.000 mAh 5 V”). Esse segundo número é bem mais próximo do que vai chegar no celular. Se o fabricante informa os dois, use o segundo para fazer as contas.
Cuidado com mAh exagerado
Se um power bank fino e leve, e muito barato, promete 30.000 ou 50.000 mAh, desconfie. A capacidade depende da quantidade de células, e células custam dinheiro e pesam. Prefira marcas conhecidas e lojas com boa reputação, e fique de olho no peso informado: um modelo de 20.000 mAh de verdade costuma pesar bem mais que um de 10.000 mAh.
Quantos mAh escolher para o seu uso
| Uso | Capacidade sugerida | Energia aproximada | Rende mais ou menos |
|---|---|---|---|
| Emergência no bolso, um dia fora | 5.000 mAh | 18,5 Wh | Pouco mais de meia carga de celular |
| Dia a dia, trabalho, faculdade | 10.000 mAh | 37 Wh | Cerca de 1,2 a 1,4 carga de celular |
| Viagem, dois aparelhos, show, estádio | 20.000 mAh | 74 Wh | Cerca de 2,5 cargas de celular |
| Notebook, tablet, viagem longa | 20.000 a 26.800 mAh, com USB-C de 45 W ou mais | 74 a 99 Wh | Uma carga de notebook leve, dependendo do modelo |
A coluna “rende” é uma estimativa para um celular com bateria de 5.000 mAh. Se o seu celular tem bateria menor, o power bank rende mais cargas. Para fazer a conta do seu caso, divida a energia do power bank (em Wh) por 1,5 e depois pela energia da bateria do seu aparelho.
Duas observações práticas:
- Mais mAh = mais peso. Um power bank de 20.000 mAh costuma pesar perto de 350 g a 450 g. Para levar no bolso todo dia, o de 10.000 mAh é bem mais confortável.
- Mais mAh = mais tempo para recarregar o próprio power bank. Se ele aceita entrada rápida por USB-C, essa espera cai bastante.
Carregamento rápido: PD, QC e o que olhar
Carregamento rápido acontece quando o power bank, o cabo e o celular combinam uma tensão maior (9 V, por exemplo) em vez dos 5 V padrão. Para isso, os três precisam suportar o mesmo protocolo. Os principais são:
- USB Power Delivery (PD): é o padrão da porta USB-C e o mais usado hoje. iPhones recentes, a maioria dos Android e muitos notebooks carregam rápido por ele.
- PPS (Programmable Power Supply): é uma extensão do PD. Alguns celulares da Samsung, por exemplo, só ativam o carregamento “super rápido” com power bank e cabo compatíveis com PPS.
- Quick Charge (QC): protocolo da Qualcomm, comum em Android mais antigos e em portas USB-A.
O que conferir antes de comprar:
- A potência da saída USB-C, em watts (W). Para celular, 20 W já fazem diferença. Para notebook, veja quanto o carregador original dele tem (geralmente 45 W, 65 W ou mais).
- Se o modelo informa PD (e PPS, se o seu celular for Samsung com carregamento super rápido).
- O cabo. Um cabo ruim ou antigo limita a potência. Para passar de 60 W, o cabo USB-C precisa ser próprio para isso.
- Se a potência é por porta ou somada. Muitos power banks dividem a potência quando você carrega dois aparelhos ao mesmo tempo.
Carregamento rápido não estraga a bateria do celular quando os aparelhos são compatíveis: o próprio celular controla quanto aceita. O que faz mal à bateria é o calor, por isso evite carregar o celular dentro do bolso ou embaixo do travesseiro.
Pode levar power bank no avião? As regras de 2026
Pode, mas as regras ficaram mais rígidas. Em abril de 2026, a ANAC revisou a Instrução Suplementar nº 175-001, que trata do transporte de artigos perigosos, e alinhou as regras brasileiras às da Organização de Aviação Civil Internacional (OACI). Os pontos principais:
- Só na bagagem de mão. Power bank não pode ir na mala despachada. Se a sua mala de mão for despachada no portão por falta de espaço, tire o power bank antes.
- No máximo dois power banks por passageiro.
- Até 100 Wh: pode levar sem autorização.
- De 100 Wh a 160 Wh: precisa de autorização prévia da companhia aérea.
- Acima de 160 Wh: proibido. Se aparecer na inspeção, terá de ser descartado antes do embarque.
- Proteção contra curto-circuito: terminais isolados ou o aparelho na embalagem original (ou em um saquinho próprio), sem ficar solto junto de chaves e moedas.
- Proibido recarregar o power bank durante o voo, nas tomadas ou portas USB do avião.
As companhias podem ser mais rígidas que a ANAC, e as três maiores do Brasil já publicaram as suas regras:
- LATAM (desde 15 de abril de 2026): proíbe usar o power bank para carregar aparelhos a bordo e pede que ele fique com o passageiro, no bolsão do assento ou em bolsa à vista, e não no bagageiro de cima.
- GOL (desde 4 de maio de 2026): proíbe usar o power bank para carregar aparelhos durante o voo e não aceita o item no bagageiro de cima. Ele deve ficar no bolsão ou embaixo do assento da frente.
- Azul: mantém os limites da ANAC e recomenda não usar o power bank durante o voo.
Em voos internacionais, as regras da OACI também limitam a dois power banks e proíbem recarregá-los a bordo, mas cada companhia estrangeira pode ter exigências próprias. Antes de viajar, confira sempre o site da sua companhia aérea, porque essas regras mudaram várias vezes em 2026.
Como saber quantos Wh tem o seu power bank
Procure “Wh” na etiqueta. Se só houver mAh, faça a conta com a tensão da célula (normalmente 3,6 V ou 3,7 V):
| Capacidade | Energia a 3,7 V | No avião |
|---|---|---|
| 10.000 mAh | 37 Wh | Liberado (bagagem de mão) |
| 20.000 mAh | 74 Wh | Liberado (bagagem de mão) |
| 26.800 mAh | 99 Wh | Liberado (bagagem de mão) |
| 30.000 mAh | 111 Wh | Precisa de autorização da companhia |
| 40.000 mAh | 148 Wh | Precisa de autorização da companhia |
| 50.000 mAh | 185 Wh | Proibido |
Por isso tantos power banks “de viagem” param em 26.800 mAh: é o maior valor comum que fica abaixo de 100 Wh. Se a etiqueta estiver apagada e o funcionário não conseguir ver a capacidade, o power bank pode ser barrado. Vale tirar uma foto da etiqueta ou guardar a caixa.
Cuidados com o power bank no dia a dia
- Não deixe no carro no sol nem perto de fontes de calor.
- Pare de usar se ele estiver estufado, deformado, muito quente ou com cheiro estranho. Bateria estufada não se conserta: leve a um ponto de coleta de pilhas e baterias.
- Não jogue no lixo comum. Muitas lojas de eletrônicos e supermercados têm coletores de pilhas e baterias.
- Se for guardar por muito tempo, deixe com carga pela metade e dê uma carga a cada poucos meses.
- Use um carregador de tomada decente para recarregar o power bank, de preferência com a potência indicada pelo fabricante.
Qual power bank comprar
Se você já sabe a capacidade e a potência de que precisa, compare os modelos no nosso guia dos melhores power banks. Se você também carrega relógio ou fone fora de casa, veja os melhores smartwatches e os melhores fones Bluetooth, e confira na ficha de cada um a bateria e o tipo de carregador. E para saber quanto custa recarregar os aparelhos na tomada, veja o método do guia quanto gasta de energia a air fryer, o ventilador e o climatizador.
Antes de comprar mais carga, faça a bateria render. Veja o guia como fazer a bateria do celular durar mais, com os ajustes do dia a dia e o limite de 80% no iPhone e no Samsung.
Perguntas frequentes
Power bank de 20.000 mAh pode levar no avião?
Pode, na bagagem de mão. Um power bank de 20.000 mAh tem cerca de 74 Wh, abaixo do limite de 100 Wh. Lembre que o limite é de dois power banks por passageiro e que ele não pode ir na mala despachada.
Posso usar o power bank para carregar o celular durante o voo?
Depende da companhia. A ANAC proíbe recarregar o power bank a bordo e recomenda não usar o aparelho para carregar outros eletrônicos durante o voo. LATAM e GOL proíbem esse uso. Na dúvida, use a tomada ou a entrada USB do assento, se o avião tiver, e deixe o power bank guardado.
Por que meu power bank de 10.000 mAh não carrega o celular duas vezes?
Porque as células do power bank trabalham em cerca de 3,7 V e a saída é de 5 V ou mais. Nessa conversão, e depois no carregamento do celular, parte da energia vira calor. Na prática, um power bank entrega de 60% a 70% do mAh da caixa.
Carregamento rápido estraga a bateria do celular?
Não, quando o power bank, o cabo e o celular são compatíveis. O celular controla a potência que aceita. O que mais desgasta a bateria é o calor, então evite carregar o celular coberto ou em lugar quente.
Posso deixar o power bank carregando a noite toda?
Os modelos de marca têm proteção contra sobrecarga e param de carregar quando enchem. Mesmo assim, recarregue em superfície dura e ventilada, longe da cama e de tecidos, e não use carregador ou cabo danificado.
Power bank estufado ainda pode ser usado?
Não. Bateria estufada indica dano interno e pode pegar fogo. Desligue, não tente furar nem apertar e leve a um ponto de coleta de pilhas e baterias.
Fontes
- ANAC: Instrução Suplementar nº 175-001 (artigos perigosos)
- ANAC: transporte aéreo de power banks tem novas regras
- Passageiro de Primeira: GOL anuncia novas restrições para power banks
- Tecnoblog: entenda as novas regras de power banks em voos do Brasil
Artigo por Daniel Montenegro, do Montenegro Recomenda. Regras conferidas em outubro de 2026.
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